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A Igreja e a Rio+20

Entrevista Publicada em: O SÃO PAULO, ed. de 19.06.2012 


Cardeal D. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

 

Qual a importância da realização de um evento das Nações Unidas sobre sustentabilidade nos dias de hoje?

R. A realização dessa Conferência tem um significado relevante; mesmo se as decisões práticas nem sempre chegam onde se gostaria, essa Conferência ocasiona uma grande tomada de consciência sobre como andam as coisas n a relação do homem, e de sua atividade econômica, com a natureza e o futuro da vida no nosso Planeta. E isso envolve a todos, desde os cidadãos até os governantes. Há nisso um efeito educativo nada  desprezível. Medidas políticas e econômicas serão eficazes, só depois dessa tomada de consciência.

A Igreja entende que o homem deve ser a preocupação central das questões ambientais. O senhor poderia explicar isso melhor?

R. O homem é o agente principal e consciente, que é capaz de interferir na natureza, quer para o bem, quer para o mal. Portanto, ele precisa aprender a lidar com a natureza de maneira lúcida e eticamente responsável, tendo em vista a sustentabilidade dessa “casa comum”, que nos abriga, nutre e encanta, e tendo em vista a solidariedade humana social, bem como o cuidado de todos os outros seres, que também são parte desse ambiente da vida. A questão ambiental, no fundo, é uma questão ética e moral. Nada muda para melhor, se o homem não tomar as decisões acertadas e responsáveis.

Há grupos e movimentos que aproveitam as discussões ambientais para colocar na pauta a questão do aborto, como se fosse um "direito humano". Qual a visão da Igreja sobre isso? 

R. A visão da Igreja sobre a questão é amplamente conhecida; não se defende a vida, promovendo a morte de seres humanos inocentes e indefesos! A proposta do aborto, nessa discussão, vai na linha do egoísmo concentrador dos recursos naturais, que leva a excluir, em vez de incluir, os convivas no banquete da vida. A inserção dessa questão na pauta ambiental é contraditória, pois propõe, lamentavelmente, o contrário da “sustentabilidade” da vida... Isso não faz nenhum sentido e espero que haja bom senso, de maneira que a pressão pela aprovação do aborto não seja incluída na Declaração final.

O senhor embarca hoje para o Rio de  Janeiro como enviado especial do papa Bento 16. Já teria condições de dizer qual a mensagem da Santa Sé para a Rio +20?

R. Fiquei muito honrado com a missão recebida da Santa Sé; ao mesmo tempo, entendo que é uma grande responsabilidade, pois se trata de fazer ouvir oficialmente, na Conferência, a palavra da Igreja Católica sobre as questões em pauta. O discurso está sendo preparado com muita atenção; certamente vai na linha daquilo que o Santo Padre e a Santa Sé já manifestou em várias ocasiões sobre a temática da economia, da ecologia e  das relações do homem com a natureza.

Qual a avaliação do senhor diante da recusa dos países ricos em criar um fundo de 30 bilhões para o ambiente global, e da dificuldade em assumirem metas de redução na emissão de gases?

R. Vejo que ainda não encaram seriamente os problemas ecológicos, já evidentes, e os que estão a caminho; prefere-se salvar certa forma de economia “depredadora” dos recursos naturais, em vez de promover mudanças no estilo e na dinâmica da vida econômica, para que ela seja ecologicamente sustentável; certamente, os países que mais poluem deveriam ser também os maiores contribuintes para reduzir esse dano à natureza e à vida humana. Bem se percebe, que ainda precisamos dar grandes passos. Espero que isso não aconteça tarde demais.

Qual a postura da Santa Sé diante das negociações?

R. A Santa Sé acompanhou atentamente as negociações até aqui, dando sua contribuição para se chegar a acordos razoáveis. A Santa Sé tem uma autoridade moral reconhecida e não poderia se furtar a tomar parte nessas negociações.

A sociedade civil organizada, inclusive organizações da Igreja, como a CNBB, a pastoral da Juventude e várias pastorais sociais e outras organizações, participa da Cúpula dos Povos. São atividades autogestionadas que apontam saídas alternativas às apresentadas pelas Delegações oficiais das Nações. Como o senhor avalia essa iniciativa?

R. É muito importante que as organizações da sociedade civil se manifestem e contribuam, à sua maneira, para buscar acordos e soluções para as questões postas pela Conferência. A sociedade civil tem maior agilidade e liberdade para discutir e propor; as Delegações oficiais tratam sintonizadas com os governos dos respectivos países. As duas posições acabam se complementando.

 

Rio+20: a questão é o homem

A Conferência das Nações Unidas sobre o clima e o futuro da economia e da vida na Terra despertou um enorme interesse. Mesmo se alguns importantes chefes de Estado preferiram não aparecer, as numerosas delegações oficiais revelam que há uma preocupação amplamente compartilhada com a sustentabilidade da economia e o futuro da vida na nossa casa comum.

Além das delegações oficiais, participantes da Cúpula final da Conferência, a sociedade civil também se mobilizou e realizou a chamada Cúpula dos Povos, que agrega numerosas ONGs, associações, sindicatos de trabalhadores, empresários, representações de Igrejas e religiões, de minorias étnicas... É uma rica e variada expressão das organizações sociais, que manifestam de maneira espontânea e direta as próprias convicções, preocupações e interesses de todos os tipos e gostos para assegurar o desenvolvimento e o bem-estar econômico, sem comprometer a sustentabilidade da vida no nosso Planeta.

Nesse variado conjunto de propostas, não faltam aquelas que aproveitam a ocasião para tentar passar suas pautas ideológicas, como a afirmação de que o aborto é “um direito humano”, que a droga seja deixada livre, ou que a prostituição deve ser reconhecida como uma profissão igual a outra qualquer... É preciso estar atentos para que, em todo esse agito, não seja vendido gato por lebre e não se assinem cheques em branco, tudo como se fosse “boa causa” em favor da sustentabilidade da vida na Terra... Esta causa precisa, mais que tudo, discernimento e escolhas acertadas.

A Rio+20 está proporcionando uma grande tomada de consciência sobre as mais variadas implicações da questão ecológica, que vão do descarte adequado do lixo, ao melhor uso dos alimentos disponíveis, do uso dos combustíveis menos danosos à vida ao modelo econômico adequado para a distribuição mais equitativa dos recursos disponíveis... É preciso mesmo desenvolver uma nova consciência, que leve a uma cultura “ecologicamente correta”; e isso requer educação atenta em todas as fases da vida das pessoas, do berço até à morte; e em todos os ambientes sociais e níveis de convivência, do privado ao coletivo e público... A questão interessa a todos.

A Igreja põe em destaque alguns princípios irrenunciáveis para uma solução adequada da questão ambiental. No centro de tudo, deve estar sempre o homem; é ele que pode estragar e destruir o ambiente da vida, ou cuidar bem e preservar a casa que abriga e sustenta a todos. A questão ambiental, antes de ser um desafio econômico e científico, é uma questão ética e moral. Depende da decisão do homem, ter atitudes corretas na sua relação com a natureza. Não podemos exigir, com nossa ganância, mais do que a terra pode oferecer.

Por outro lado, pretender a solução do problema ambiental, excluindo o cuidado do homem, também seria impossível; a solução virá com a promoção de uma correta “ecologia humana”, que supõe a superação da pobreza, a aplicação de mais recursos para a educação e a saúde, a afirmação clara da dignidade humana e dos legítimos direitos universais da pessoa. É questão de uma correta antropologia e de solidariedade social.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 19.06.2012
Cardeal D.Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo